Entenda as ideias do grupo que inaugurou uma nova etapa no ativismo online, unindo hackers e causas que beneficiem a sociedade
O anonimato nunca esteve tão em voga. Atualmente, um
movimento de hackers tem se manifestado mundialmente em prol de causas
que beneficiam a sociedade, sem medo de peitar o FBI ou qualquer
governo. Assim é o Anonymous, que ganhou ainda mais destaque dentro (e
fora) da web após os protestos contra o fechamento do Megaupload em janeiro de 2012.
O
grupo surgiu em 2003 em fóruns e sites de compartilhamento de imagem,
como o 4Chan. Seu nome faz referência à cultura de internet,
principalmente a sites que permitem publicações de usuários - aliás,
quem nunca postou alguma coisa como "anônimo"? De fato, sob uma alcunha
dessas, qualquer um pode fazer parte do grupo.
Qualquer um mesmo, já que não é difícil se inscrever (basta mostrar
conhecimento técnico para contribuir ao grupo). Portanto, você pode
estar convivendo diariamente com alguns Anonymous sem saber. Isso revela
o senso de humor do movimento, que rapidamente ganha novos integrantes e
se espalha, como um verdadeiro meme da internet.
Hackers do Anonymous estão fazendo sucesso na rede
V, Guy Flawkes e Alan Moore
A maioria dos heavy users
já se acostumou a ver as máscaras de Guy Flawkes, egressas da graphic
novel V de Vingança (cujo roteiro é de Alan Moore e o desenho, de David
Lloyd). O verdadeiro Flawkes foi peça-chave na Conspiração da Pólvora,
um atentado para matar o rei Jaime I da Inglaterra, em 1605. Por mais
que nada tenha dado certo naquele 5 de novembro, o personagem tornou-se
um ícone do espírito anárquico, e a personificação do Anonymous.
Sem
uma liderança definida, os participantes do movimento se organizam nas
redes sociais e fóruns, estabelecendo os objetivos de suas ações, além
das maneiras de executar seus planos. Todos os membros trabalham
impulsionados por ideias libertárias, sem qualquer desejo de
reconhecimento (uma das razões para o anonimato, além da segurança - é
claro).
Foi em 2006 que o grupo realizou sua
primeira atividade em conjunto, quando uma criança de 2 anos, portadora
do HIV, foi proibida de usar a piscina de um parque de diversões no
Alabama, EUA. Em protesto, o Anonymous invadiu uma área no Habbo (aquela
rede social meio cartunesca que imita um hotel). Todos os membros
usaram o mesmo avatar: de um homem negro com cabelo black power,
bloqueando o acesso à piscina, com o aviso de "Fechada devido a AIDS".
Quando esses usuários foram banidos da rede, eles alegaram racismo. Foi
uma pequena ação, mas que mostrou as inclinações e direcionamentos do
grupo.
Sairam das páginas das HQs, desafiam poderoso nas páginas da rede e tomaram de assalto as páginas da mídia
Ativismo e muito barulho na internet
Anos
depois, em 2011, o Anonymous já alçava voos mais altos (e fazia muito
mais barulho). Em setembro deste mesmo ano, o grupo apoiou o movimento
Occupy Wall Street, nos EUA. Tratava-se de um protesto contra a
influência das grandes corporações no governo. Quando a polícia retirou
os ativistas do local da manifestação, o Anonymous revidou, ao expor
dados pessoais dos policiais envolvidos na ação.
Um
mês depois, mais de 1500 usuários do site Lolita City tiveram seus
dados expostos, sob a acusação de tráfico de 100 gigabytes de imagens
com pornografia infantil.
Mas a luta
pela qual o Anonymous tem se tornado mais conhecido é a da liberdade na
internet. Ela começou em 2006, quando o radialista norte-americano Hal
Turner processou (e perdeu) os fóruns que serviam de casa para o
movimento.
Logo depois, em 2008, a
Igreja da Cientologia pediu para que um vídeo de Tom Cruise, promovendo a
religião, fosse retirado do YouTube. Os anônimos consideraram o
episódio um ato de censura. Então, atacou sites relacionados e passou
trotes (por telefone) para a Igreja.
Quando
instituições tentaram desativar as páginas de torrent, como o Pirate
Bay, foi criada a Operation Payback ("Operação Vingança", em tradução
livre), que derrubou, por 30 horas, os sites de organizações que
coordenam a distribuição de produtos com direitos autorais. Foram alvo,
também, empresas de advocacia envolvidas nos processos - além do
compartilhamento de e-mails de uma dessas empresas, que continham
informações sobre milhares de usuários envolvidos com a livre
distribuição de conteúdo na web.
Meses
depois, essa operação se concentrou em apoiar o WikiLeaks, atacando o
site do PayPal, Mastercard e Visa, entre outros, depois que essas
empresas retiraram as opções dos usuários contribuírem, por meio desses
sistemas, com o site de Julian Assange.
Julian Assange e o Wikileaks já foram "defendidos" pelo Anonymous
A luta contra a Sopa
Em meio à polêmica da Sopa,
o Anonymous se mostrou (obviamente) contra essa lei. Quando (em 19 de
janeiro de 2012) o site Megaupload foi fechado pelo FBI, o grupo tomou
medidas drásticas: fechou 14 websites,
como o da Universal Music, da Casa Branca, do Departamento de Justiça
dos EUA e até do próprio FBI. A próxima batalha deve ser travada contra o Anti-Counterfeiting Trade Agreement (Acta).
Frente
à segurança desses sites, o Anonymous ganhou status de um Davi que está
pronto para encarar a guerra cibernética pela liberdade. E é claro que,
com essa fama toda, surgem boatos de novos ataques, dos mais diversos
tipos. Por isso mesmo, toda ação de hackers em grande escala tem sido
atribuída ao grupo, mesmo aquelas que vão de encontro ao que o movimento
tem defendido.
A intenção do grupo não é deixar
nenhum usuário da internet com medo. Pelo contrário, eles deixam claro
que suas vítimas são as grandes corporações e governos, justamente
aqueles que podem tirar a liberdade de quem navega na web. Há até mesmo
um tutorial de como se defender na rede, feito pelo grupo para os internautas.
A ideia é essa, ser um grupo civil com força suficiente para enfrentar o poder institucional. Ainda mais no Brasil, que tem um histórico de ditadura que ainda é recente, não é difícil ver o Anonymous como uma nova espécie de heroi.
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